A apologia do heroísmo, do empertigamento, da vontade de ser grande merecia outro epílogo. O Vitória de Guimarães esteve muito mas muito perto da fase de grupos da Taça UEFA e só caiu no prolongamento, quando as forças se foram e Peter Crouch se elevou das brumas. Mas os minhotos merecem o elogio. Pela aversão à pequenez, por terem sido enormes durante um pedaço generoso do encontro, pela dignificação de um emblema histórico aos olhos do planeta futebol. Uma vez mais, se provou que os grandes orçamentos não têm de sentenciar o que quer que seja. Haja vontade de os contrariar.
Coragem, personalidade. Premissas colocadas pelo Vitória no relvado desde o primeiro instante. Coragem para explorar as fraquezas (muitas) alheias e insistir nas rotações máximas como veículo na transposição de uma defesa corpulenta mas duríssima de rins. Personalidade para não abdicar dos seus princípios básicos de jogo: a estrutura habitual de Cajuda serviu muito bem para esta partida.
Do outro lado, a teoria do comodismo. Um Portsmouth refastelado sobre um colchão de dois golos de vantagem, quase bocejante e a olhar de soslaio. O Vitória avisou. Uma, duas vezes, até alarmar os britânicos.
Bola a sobrevoar a povoadíssima área britânica, Douglas a acariciá-la e a deixar David James estupefacto. Crença multiplicada nos minhotos, Portsmouth em estado de semi-alerta, ainda convencidos de que tudo não passava de um deslize com o seu quê de caprichoso.
Vitória lado a lado na eliminatória
32 minutos, tudo empatado na eliminatória. Pontapé de longa distância de João Alves, bola a saltitar pela verde esperança do Vitória e a acabar dentro da baliza do Portsmouth. David James bem esticou os olhos, mas ficou-se por aí. Exigia-se outra postura daquele que é o titular da selecção inglesa. O Guimarães agradece a simpatia.
Flávio Meireles, Wênio e João Alves reinavam no meio-campo. Impunham ritmos, pressionavam sôfregos os ingleses e empurravam a sua equipa para a frente. Estremunhados, os ingleses tentavam equilibrar-se, com as calças na mão e as pernas trôpegas pelo choque.
Só nos 15 minutos iniciais da etapa complementar, os Pompeys se decidiam a mostrar qualquer coisa. Principalmente através das arrancadas fortíssimas de Glen Johnson pela direita. O lateral tentava uma, duas, três vezes encontrar a cabeça de Peter Crouch ou a sagacidade de Jermaine Defoe. Sem sucesso, para alívio das almas vimaranenses.
Um prolongamento intoleravelmente cruel
Reposto o equilíbrio nas operações, eis que o jogo avança impetuoso até ao prolongamento. Para trás ficava um Vitória prudente, cauteloso, a controlar a pressão de uma partida decisiva para o seu futuro na UEFA. Ficava também o azar pela lesão de Carlitos (apenas 12 minutos em campo) e o quase esgotamento compreensível pelo esforço movido em grande parte do duelo.
Para final de conversa, como numa boa trama cinéfila, a morte do herói às mãos de um vilão com centímetros a mais. Já depois de Diarra ter sido poupado à expulsão por pisar Andrezinho, David James ter feito uma estupenda defesa a remate do então exausto João Alves e o árbitro assistente anular bem um golo a Flávio Meireles, Peter Crouch marcava.
Minuto 104, crueldade intolerável. Andrezinho desta vez não conseguia trepar à interminável torre britânica e o Vitória caía. Caía de pé, como caem os campeões.
O segundo golo de Crouch já não faz parte deste argumento. Apenas serviu para golpear sem misericórdia um Guimarães que nada fez para tamanha desfeita. A maior frescura do Portsmouth fez toda a diferença na última meia-hora.
A Taça UEFA merecia ter Vitória desta qualidade por mais tempo.
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